A princesa misericordiosa
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A princesa misericordiosa
Ir. Carmela Werner Ferreira, EP - 2015/11/09

Com o tempo Matilde passou a sentir uma inveja muda de Leonor. Por que tinha ela vestidos de seda, uma voz cristalina e tocava tão lindo instrumento?

Ir. Carmela Werner Ferreira, EP

Vivia num reino longínquo uma princesa chamada Leonor, filha de monarcas cristãos, tementes a Deus. Sua linhagem era das mais ilustres, e aos feitos dos seus antepassados somava-se a piedade e retidão dos reis, seus pais, cuja virtude os tornavaimg1..jpg dignos da coroa que cingiam.

Todas as manhãs, Leonor assistia à Missa na capela do palácio, em companhia da mãe, e rogava à Rainha do Céu e da Terra que a protegesse quando lhe coubesse a responsabilidade de governar. Terminada a Missa, encontrava-se com o pai e aplicava-se com afinco ao estudo, a fim de agradá-lo. Recebia lições de Religião, canto, bandolim e bordado, mas não descuidava a História, o latim ou a aritmética.

O palácio em que vivia contava com numerosa criadagem. Entre as cozinheiras havia uma especialmente dedicada aos soberanos: Maria. Sua mãe e avó serviram aos pais do rei, e ela sonhava ver a filha seguir os mesmos passos... Um dia, sem que nada pedisse, a rainha a chamou e disse:

- Sei que tens uma filhinha pequena, que fica sozinha em casa ao vires para cá. Não queres trazê-la contigo?

Comovida, a cozinheira começou a trazer consigo a pequena Matilde. Com apenas nove anos e muito vivaz, a menina não perdia nenhum movimento, crivando a mãe de perguntas. Queria saber como funcionava o forno, os segredos da produção de licores, de onde saíam ovos tão grandes...

Com o tempo ela foi se acostumando à vida palaciana e passou a sentir uma inveja muda de Leonor. Por que tinha ela vestidos de seda, uma voz cristalina e tocava tão lindo instrumento? Por que estava rodeada de atenções? Estas e outras perguntas a deixavam tristonha, embora sua consciência acusasse a maldade destes pensamentos, aconselhando-a a fugir deles. Contudo, Matilde deixou-se levar por tais sentimentos perversos e arquitetou uma cilada...

Numa aprazível manhã, Leonor dirigiu-se a uma das sacadas do palácio, da qual se contemplava uma bela vista do jardim. Antes de ali chegar, Matilde correu na frente e empurrou a cadeira em que ela certamente se sentaria para um canto coberto por vegetação, onde não havia segurança. A princesa estranhou ao ver que Matilde voltava da sacada e se esgueirava para o salão a toda pressa... Mas encantada como estava com as flores, sentou-se sem prestar atenção no perigo. E bastou-lhe um ligeiro movimento para precipitar-se no vazio!

Um grito lancinante ecoou pelas paredes do palácio. Que teria acontecido?! Os guardas chegaram e se depararam com a princesa alquebrada, tentando em vão se levantar. Ao ser examinada pelo médico, este constatou uma séria lesão numa das pernas, embora se esperasse algo mais grave, pelo impacto da queda.

- Foi Deus que me amparou! - balbuciou Leonor - Poderia ter sido pior. E se Ele permitiu que este mal me acontecesse, foi para tirar dele algum bem.

O desastre parecia ter sido um infortunado acidente... A princesa, no entanto, desconfiava de Matilde, por seu olhar sombrio nos últimos dias e por sua sorrateira saída da sacada naquela manhã... Todavia, decidiu guardar para si qualquer suspeita e não levantou o assunto com o pai.

Passou-se o tempo e a princesa se submetia a penosos tratamentos, que não surtiam maiores efeitos. Só depois de dois anos voltou a andar, porém com uma sequela irreversível: ficara manca!

Atormentada pelo remorso e temendo ser descoberta, Matilde pedira à mãe para ausentar-se do palácio. Com pesar a boa senhora - que sequer imaginava o ponto ao qual chegara a maldade da filha - a viu voltar ao vilarejo. Em pouco tempo a menina estava envolvida com jovens devassos, que a levaram por péssimos caminhos.

Transcorreram-se as décadas e tudo mudou. Leonor crescera, dando mostras de ser herdeira não só do reino como das virtudes do pai. Com a partida do rei para a eternidade, a princesa tornara-se rainha e governava com prudência e sabedoria.

Um dia, durante as audiências, ouviu-se ecoar pelo castelo gritos desesperados, implorando misericórdia. Era uma mulher acorrentada, com os cabelos desgrenhados e ferida, pertencente a uma quadrilha de salteadores. Havia roubado somas astronômicas e, ao ser capturada, fora condenada à prisão perpétua. Antes de ir para o calabouço, contudo, ela suplicava para ser recebida pela soberana, por razões que explicaria pessoalmente. A rainha Leonor mandou-a entrar e não tardou em reconhecê-la... era Matilde! Trinta anos depois, estava reduzida a uma mísera situação.

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Matilde chorou suas culpas e voltou
a trabalhar no palácio

- Majestade, sou Matilde, filha de vossa falecida e leal servidora. Fui justamente condenada e sei que ainda mereço castigo pior... Entretanto, implorei para ser trazida aqui porque quero confessar-vos o pior de meus crimes: sou a responsável pela vossa deficiência física! Eu empurrei vossa cadeira para aquele canto da sacada, a fim de cairdes! Eu vos ofendi e mereço estas penas... Agora, rogo vosso perdão e vossa clemência para poder me reconciliar com Deus, que não abandona um coração arrependido!...

Tão surpreendentes palavras foram pronunciadas num só fôlego e um pesado silêncio de indignação pairou no ambiente. Todos os olhares se voltaram para a rainha, esperando o veredicto.

- Matilde, agiste mal em relação a meu povo e a mim. Há muito que ouço contar as reprováveis ações de tua quadrilha. Não obstante, como soberana cristã devo imitar Aquele que, no alto do Calvário, perdoou os que O ofendiam. Em Deus a misericórdia triunfa da justiça e, se quero conservar o mais sublime de meus títulos, o de ser católica, devo seguir seus passos. Pedes-me perdão pela ofensa que me fizeste: está concedido! E para que meus súditos tenham prova de teu arrependimento, deverás permanecer três anos reclusa fazendo penitência, assistida por um capelão que te reconcilie com Deus e te reconduza pelos caminhos do bem. Então, virás trabalhar no palácio em lugar de tua mãe, que decerto intercede por ti, do Céu. Esta será a prova de minha clemência.

A pobre mulher emendou-se e chorou seus pecados, vindo depois a servir fielmente na corte. A notícia espalhou-se por todo o reino, que louvou a Deus por lhes ter dado uma rainha tão santa! (Revista Arautos do Evangelho, Outubro/2015, n. 166, pp. 46-47)

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