Consolações e recompensas do sacerdote
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Consolações e recompensas do sacerdote
Cardeal James Gibbons - 2009/09/13

 

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Cardeal James Gibbons (*)

Da obra O Embaixador de Cristo, escrita em 1896 pelo cardeal James Gibbons (arcebispo de Baltimore, 1834-1921), está transcrito abaixo o último capítulo. Nessa conclusão de seu livro, as eloquentes palavras do prelado exaltam o ministério sacerdotal católico, apontando as promessas de recompensa feitas por Deus  e que estão consignadas na Sagrada Escritura, além de mencionar as consolações que os presbíteros já recebem ainda nesta vida.

"Somos, pois, embaixadores de Cristo; é como se Deus mesmo fizesse seu apelo através de nós": essas palavras, dirigidas por São Paulo aos coríntios (2Cor 5, 20), embasam o título da magnífica obra do cardeal Gibbons tão útil para o entendimento e a contemplação das maravilhas do sacerdócio.

 

A vida do padre fiel à sua missão é cheia de rudes provações e vicissitudes, e demanda uma abnegação contínua. O padre renuncia heroicamente aos prazeres da carne e às doces alegrias do lar doméstico para se submeter durante uma vida inteira aos rigores de uma disciplina severa que em cada dia, quase em cada hora, lhe impõe indeclináveis deveres. Ele passa aos olhos do público por um servo a quem tanto os membros do rebanho como os estranhos, tanto os crentes como os descrentes, podem recorrer em qualquer tempo, sem receio de serem importunos, para expor as suas penas ou para pedir conselho.

Os trabalhos do padre são, por sua natureza, idênticos ao do Apóstolo das Gentes, embora não atinjam a grandeza destes. Os interesses materiais da Igreja que lhe foi confiada absorvem-no, e a vigilância da sua paróquia preocupa-o. Qualquer calamidade espiritual ou temporal que aflija os membros do seu rebanho é para ele motivo de grande solicitude e angústia. Bem pode dizer com o Apóstolo: "Quem fraqueja, que eu também não fraqueje? Quem tropeça, que eu não me incendeie?" (2Cor 11, 29).

E quantas vezes o fazem sofrer atrozmente as calúnias levantadas por homens que não o conhecem e se deixam cegar por preconceitos, a ponto de malsinarem sempre as suas palavras e ações mais inofensivas! Com o mesmo Apóstolo pode ele exclamar: "somos injuriados, e abençoamos; somos perseguidos, e suportamos; somos caluniados, e exortamos; tornamo-nos como que lixo do mundo, a escória universal, até ao presente" (1Cor 4, 12-13).

Pois, apesar de tudo, o homem apostólico que trabalha de alma e coração pode com toda a verdade afirmar como São Paulo, que está "cheio de consolação e transbordo de alegria, em todas as nossas aflições" (2Cor 7, 4).

Qual é o segredo da sua consolação? Quais são os mananciais ocultos em que refrigera a sua alma no meio dos trabalhos e cuidados incessantes da vida sacerdotal? Quais são as recompensas temporais e as bênçãos celestes que lhe dão essa serenidade de alma, essa alegria de espírito, que sempre lhe transparece no rosto?

Em primeiro lugar, o servo dedicado de Cristo goza da liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Desembaraçado de uma riqueza supérflua, com a certeza de possuir o suficiente, não o preocupam as necessidades futuras que, além de poucas, são fáceis de satisfazer. Não está sujeito à miséria dourada dos ricos que, escravos de seus tesouros, em vez de os possuírem, parecem por eles possuídos, não se poupando o cansaço para conservá-los e aumentar e entristecendo-se só com pensar que um dia deles se hão de separar.

Por outro lado, para ele não há a tirania das paixões porque as pôs sob os pés, nem as ansiedades e mil cuidados daqueles que têm a seu cargo a sustentação de uma família. Enfim, nenhumas cadeia o prende à terra mas, como o caminheiro a quem não pesam as bagagens, está sempre pronto a empreender a longa viagem, logo que ao seu Senhor apraza chamá-lo a um mundo melhor. .

Outra fonte de consolação e de alegria para os obreiros apostólicos é o sentimento da presença continua de Jesus Cristo em suas almas, é a fé em uma Providência que vela por eles de modo especial. Coisa digna de notar-se: no primeiro discurso que dirige aos seus Apóstolos, depois de havê-los escolhido, como nas últimas palavras que profere antes da sua Ascensão, o divino Salvador exorta seus discípulos de modo particular a terem nele confiança absoluta, e promete-lhe assistência permanente. Antes de enviá-los a cumprir a missão de evangelizar os povos, declara-lhes que quanto mais sofrerem, tanto mais semelhantes se tornarão a Ele; que não devem estranhar ser contraditos e hostilizados pelos homens; que nada devem recear da parte daqueles que matam o corpo, mas não têm poder sobre a alma; que sem a permissão de Deus nem um só cabelo lhes cairá da cabeça; e que, se a Ele e ao seu Evangelho permanecerem fiéis, intercederá por eles diante do trono de seu Pai celeste. E por último, antes de abandonar a terra, nas palavras que lhes dirige em despedida, deixa ainda a consoladora promessa de estar com eles todos os dias até à consumação dos séculos.

Que repouso e contentamento, que confiança e tranqüilidade não inspiram estas palavras! Se no mais aceso do combate o soldado não perde o ânimo por se lembrar que os olhos do seu comandante estão fixos nele, de quanta coragem se não revestirá o soldado de Cristo ao considerar que a seu lado está o Divino Capitão, de modo real embora invisível, para o incitar e sustentar, a todos os instantes, nos trabalhos e nas lutas!

Não há dúvida de que o ministro do Senhor é amparado, como o justo, por uma especialíssima providência de Deus, mas, além disso, é confortado também pela presença sacramental de Jesus Cristo no Santo Sacrifício que ele por um singular privilégio todos os dias oferece.

Deixou a família e os parentes, perdeu os amigos, mas em compensação goza da companhia quotidiana do seu Mestre cuja terna amizade pode saborear intimamente no augusto Sacrifício da Missa e durante as visitas ao Santíssimo Sacramento. Na celebração dos divinos Mistérios é favorecido com luzes celestes e recebe um vigor espiritual que o torna apto para suportar as fadigas e para cumprir as obrigações diárias. O Pão celestial, como o alimento que outrora sustentava o profeta Elias no deserto, dá-lhe força para recomeçar em cada dia a jornada da vida, até que atinja o verdadeiro Horeb.

O padre exemplar encontra também uma fonte inesgotável de delícias interiores no testemunho da sua consciência.

A alegria de uma boa consciência é um perene festim. Aquele que possui uma consciência reta tem dentro de si mesmo o reino de Deus, reino da paz e da tranqüilidade. Não o inquietam as tempestades que em volta dele se levantam, porque os juízos desfavoráveis dos homens mal podem perturbar aquele que, pautando o seu procedimento pelas regras da retidão e da justiça, apenas procura a aprovação do Céu. E esta não falta aos que trazem diante dos olhos da alma aquilo de S. Paulo: "Essa recomendação visava promover o amor que nasce de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera "(1Tim 1, 5). Por outras palavras, o objeto ou o alvo do ministério sacerdotal é alimentar as virtudes da fé, esperança e caridade no coração do povo; e para isso precisa o padre de ter uma fé viva, um amor ardente ao próximo e uma consciência pura, elementos estes que tornam a sua missão sobremodo agradável a Deus.

Quão feliz não é o servo de Cristo quando pode fazer suas as palavras do Apóstolo: "Nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência. De fato, temos procedido em todo o mundo, e principalmente em relação a vós, com a simplicidade e a retidão que vêm de Deus, guiados não por cálculos humanos, mas pela graça de Deus." (1Cor 1, 12).

A afeição mútua entre o pai espiritual e seus filhos em Jesus Cristo é o sentimento mais forte e mais sagrado que pode fazer pulsar o coração humano, e é simultaneamente a fonte das mais puras e nobres alegrias. Esse laço de parentesco divino era motivo de piedosas exultações para o Apóstolo. Escrevendo aos Coríntios, dizia ele: "como em parte já compreendestes, que nós somos motivo de glória para vós, como o sois para nós, no dia de nosso Senhor, Jesus." (2Cor 1, 14).

Não há prazer mais elevado e duradouro do que aquele que deriva da consciência de se haver feito bem ao próximo. Era tal a satisfação experimentada por São Paulo na santificação das almas, que exclamava: "De muita boa vontade sacrificarei tudo e me sacrificarei a mim mesmo pelas vossas almas, ainda que, amando-vos eu mais, seja de vós menos amado" (2Cor 12. 15).

São João narra-nos a alegria que inebriava seu coração quando tinha conhecimento dos progressos de seus discípulos na virtude: "Não há para mim gosto maior do que saber que os meus filhos andam no caminho da verdade" (3Jo 1, 4).

Tal é também a satisfação que o pastor zeloso sente quando consegue trazer para o aprisco uma ovelha desgarrada, quando vê o confessionário e a mesa da comunhão mais freqüentados que o costume, quando no domingo nota na Igreja um número mais avultado de fiéis ou uma devoção mais profunda.

E não será imensamente mais vivo o prazer do padre que vê o seu rebanho em santidade, graças a seus desvelos pastorais, do que o do milionário que acumula riquezas ou do lavrador que faz uma boa colheita? Certamente que sim; porque as riquezas e as messes são bens perecedouros, ao passo que as almas, salvas pela solicitude do pastor, hão de viver eternamente e formar em redor dele uma auréola gloriosa. O padre bem pode, portanto, dirigir a seus filhos as palavras do Apóstolo: "Meus muito amados e desejados irmãos, minha alegria e minha coroa" (Flp 4, 1).

Ademais, a satisfação que ao padre advém do cumprimento da sua caritativa missão, torna-a maior ainda o sentimento de profunda gratidão que ele desperta nas almas. Uma autoridade humana pode exigir dos seus súditos o tributo de dinheiro, mas não é capaz de obrigá-los a esse precioso tributo de cordial afeto que o rebanho, muito livre e espontaneamente, paga ao seu pastor. .

As crianças da paróquia amam-no ternamente. Instintivamente o procuram como ao seu pai espiritual que as conduziu ao sacramento da regeneração e as tem alimentado com o leite da ciência sagrada. .

Os adultos que têm conservado a sua integridade religiosa e moral abençoam-no como o anjo visível que os há guiado na senda da verdade e da justiça.

Os pecadores penitentes são-lhe gratos e reconhecem nele um pastor amante que conseguiu fazê-los abandonar os ínvios atalhos do vício e reconduzi-los, após tantos desvairamentos, à casa do Pai celeste.

Os pobres saúdam nele o benfeitor que nunca os afastou do seu caminho e cuja mão liberal sempre esteve aberta para socorrê-los.

Os doentes põem nele a sua confiança como em médico espiritual, sempre pronto a suavizar agruras com celestiais consolações e palavras de simpatia.

As almas tristes e desconsoladas encontram nele quem as alivia do fardo que lhes esmaga o coração.

Enfim, toda a paróquia o venera e honra; as suas ovelhas consideram-no como um guia e um amigo sempre disposto a distribuir o pão da vida, a pregar a salvação, dissipar as dúvidas, e apaziguar as discórdias.

E não se julgue que esta dedicação dos fiéis se limita a um mero sentimento vão e frívolo. Eles procuram com ardor o mínimo pretexto para testemunhar ao padre a sua dedicação, ainda que às custas de penosos sacrifícios. Mais de um pastor verdadeiro poderá dizer do seu rebanho o que São Paulo dizia dos Gálatas: "E não me desprezastes nem rejeitastes [...] mas, ao contrário, me recebestes como um anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus. [...] Posso testemunhar que, se fosse possível, teríeis arrancado os próprios olhos para me dar" (Gal 4, 14-15).

Poucas páginas há na Sagrada Escritura tão tocantes e patéticas como as que descrevem a partida de São Paulo de Éfeso. Antes de deixar essa cidade e embarcar-se, o Apóstolo, reunido o clero, ajoelhou na praia e pôs-se em oração com ele. Entretanto todos choravam e o abraçavam. "Estavam muito tristes, principalmente porque havia dito que eles nunca mais veriam seu rosto" (At 20, 38). Não é menos amado nem menos chorado o pastor amigo das suas ovelhas, quando parte para outra missão ou vai receber a recompensa eterna.

Esta recíproca afeição entre o Embaixador de Cristo e o seu povo é um dos incentivos mais poderosos nos trabalhos, privações e sacrifícios de uma vida inteira. "Quando amamos, não há para nós trabalhos ou, se os há, não os sentimos porque os amamos" (Santo Agostinho, De Bono Viduitatis, 25-26). O amor vence todos os obstáculos, supera todas as fadigas.

Era o excesso de amor paternal que obrigava o Apóstolo a dizer: "Eu desejo ser anátema em Jesus Cristo por meus irmãos que são meus parentes segundo a carne" (Rm 9, 3). Era esta dedicação que o fazia suportar com alegria as injúrias e a perseguição, os naufrágios e a prisão.

 Mas a fonte principal da felicidade para o ministro de Cristo é a certeza de uma recompensa eterna. O reino do Céu foi prometido por Nosso Senhor nomeadamente a quatro classes de pessoas:

1) Aqueles que tiverem empregado esforços para viver vida irrepreensível e houverem chorado sinceramente as suas faltas e pecados. "Quem poderá subir à montanha do Senhor? Quem habitará no seu santuário? Aquele que tem as mãos inocentes e puro o coração, que não recebeu em vão a sua alma nem fez juramentos dolosos ao seu próximo" (Ps 24, 3-4). "Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus" (Mt 5, 8)

2) Aqueles que voluntàriamente renunciaram ao mundo e se consagraram ao seu serviço: "Nós deixamos tudo - dizia Pedro a Jesus - para vos seguir; qual será pois a nossa recompensa?" E Jesus responde-lhe: "Em verdade vos digo que no dia da regeneração, quando o Filho do homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me seguistes, também estareis sentado em doze tronos e julgareis as doze tribos de Israel. E todo aquele que deixar por amor do meu nome a casa ou os irmãos ou as irmãs ou o pai ou a mãe ou a mulher ou os filhos ou as fazendas, receberá cento por um e possuirá a vida eterna" (Mt 19, 27-29).

3) Aqueles que tiverem praticado a caridade com os pobres e os aflitos: "Vinde, benditos de meu Pai, tomar posse do reino que vos está preparado desde o princípio do mundo. Porque tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; era hóspede e recolhestes-me; estava nu e cobristes-me; estava enfermo e visitastes-me; estava no cárcere e viestes ver-me... Na verdade vos digo, quantas vezes vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim é que o fizestes" (Mt 25, 34-40).

4) Ao intrépido arauto do Evangelho que sabe pôr a sua vida de harmonia com a doutrina que prega aos outros: "Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai que está nos céus" (Mt 10, 32). "Se confessares com a tua boca ao Senhor Jesus, diz o Apóstolo, e creres no teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Porque com o coração se crê para alcançar a justiça; mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação" (Rm 10, 9-10).

Ora, a esperança sobrenatural do padre zeloso tem os seus fundamentos em cada uma destas quatro promessas. Pois não é o fim constante dos seus esforços viver na justiça e na inocência e implorar de Deus, todos os dias, ao pé do altar, o perdão para as ofensas e negligências do dia? Não renunciou ele às riquezas e prazeres deste mundo quando, junto da ara santa, escolheu solenemente o Senhor como "a parte da sua herança"? Não gasta ele uma boa parte do seu dia em consolar os que precisam e em aliviar os pobres e aflitos? Enfim, não é sua missão especial e sua ocupação habitual confessar a Jesus Cristo e defender-lhe a honra?

Ó irmãos meus no sacerdócio! Se uma nação reconhecida erige monumentos aos homens de Estado e aos soldados que defenderam nas câmaras legislativas ou nos campos de batalha contra os inimigos internos ou estranhos, quão superabundante há de ser a recompensa pelo Senhor dos exércitos outorgada a vós, confessores da fé, que manejastes esse gládio espiritual - a palavra de Deus - para defender a integridade da república cristã e proteger as Suas leis sagradas contra os assaltos dos inimigos! Se Deus governa como Deus, julga como Deus e pune como Deus, não há de também recompensar como Deus?

Quão poucos daqueles que batalharam pela sua pátria têm os nomes registrados no livro da fama! Quantos capitães há, que manifestaram o gênio de um Napoleão, a fortaleza de um Washington, a vontade de ferro de um Wellington e, todavia, caíram no campo da' batalha, sem lágrimas, sem glória, sem hinos de louvor, porque não tiveram um cronista que narrasse suas heróicas façanhas!

Deus, porém, não esquece assim os soldados da Cruz. O mais humilde cura de aldeia, cuja pregação não foi elogiada pela imprensa nem mesmo ouvida fora das quatro paredes da sua pobre igreja, e cujas boas obras ficaram ignoradas dos homens, verá escritas suas palavras e registradas suas ações com letras de ouro nas páginas imorredouras do Livro da Vida. Porque Cristo, que não consentiu em que se perdessem no deserto os mínimos fragmentos do pão miraculoso, certamente providenciará para que não pereça o pão vivo da verdade e da caridade. Este pão não alimenta só aqueles a quem é distribuído, mas, semelhante à oração do profeta-rei, volta ao coração daquele que o dispensa e enche-o de força e consolações espirituais.

Se Deus disse a Abraão, o pai do povo escolhido, que "Eu sou teu protetor e tua recompensa imensamente grande" (Gn 15, 1), com certeza não será menos generoso em bênçãos para o pai espiritual da família cristã, para aquele que a gerou em Cristo e a alimentou com o pão do Evangelho.

Se o Apóstolo declara que uma coroa de glória está reservada aos que combateram o bom combate e conservaram a fé, quão refulgente não deve ser a coroa destinada ao pastor fiel que não só guardou a fé em seu próprio coração, mas até a fez germinar no coração dos outros! "Aquele que observar os meus mandamentos, diz Nosso Senhor, e os ensinar a observar, esse será reputado grande no reino dos céus" (Mt 5, 19).

São Paulo assevera que os seus queridos Coríntios, objeto de sua pastoral solicitude, hão de ser na vida futura sua coroa e glória. Mais glorioso e radiante do que um conquistador romano ao entrar triunfante na cidade dos imperadores, se apresentou o Apóstolo na celeste Jerusalém, rico com os tesouros das suas boas obras e vitoriado pelo exército de almas que resgatara e conquistara para seu Mestre.

Nós também, se formos discípulos fiéis, poderemos ter a certeza de que as almas benditas cuja conversão e santificação promovemos na terra, acrescentarão mais um raio à nossa glória no céu.

Quando o zeloso e devotado pastor contempla os filhos espirituais que, pelos seus cuidados, perseveraram até ao fim, tem sobeja razão para exclamar com o Apóstolo: "Qual é a nossa esperança, ou o nosso gozo, ou a coroa de glória? Porventura não sois vós outros ante Nosso Senhor Jesus Cristo na sua vinda?" (1Tes 2, 19). A vossa felicidade será minha, porque eu a compartilharei convosco. Quando abundardes em merecimentos, superabundarei eu em alegria. As vossas virtudes aumentarão a minha recompensa e a vossa glória refletir-se-á em mim. Se "os filhos dos filhos são a glória dos velhos e os pais a glória dos filhos" (Pr 17, 6), a vossa salvação aumentará a minha glória e constituirá o meu triunfo. Sirva este pensamento para nos animar a todos a fazer crescer o número dos eleitos!

Há graus na hierarquia dos coros angélicos e, pelo testemunho do Apóstolo, sabemos que também os há entre os santos do Céu. "um é o brilho do sol, outro o brilho da lua e outro o brilho das estrelas; e até de uma estrela para outra, há diferença de brilho" (1Cor 15, 41).

Não podemos nós, sem presunção, assinar um dos mais elevados graus' de felicidade a um Bento, a um Francisco de Assis, aos apóstolos das nações, a esses fervorosos missionários que, tendo o coração abrasado no fogo do amor divino, iluminaram e inflamaram o mundo cristão, e, semelhantes aos anjos da escada de Jacó, subiam a procurar a luz do alto e desciam, em seguida a comunicá-la aos filhos dos homens?

Já nesta vida começam a receber cento por um, porque possuem "a paz de Deus que sobrepuja todo o entendimento", e na vida futura gozarão o prêmio de que fala o Profeta: "Os que tiverem sido doutos, resplandecerão como fachos do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça, luzirão como estrelas por toda a eternidade" (Dan 12, 3).

Felizes aqueles que, com intenção pura, anunciaram a consoladora nova da salvação. A esses repete Cristo o que disse aos discípulos no seu último discurso: "Há muitas mansões na casa de meu Pai. Se assim não fora, eu vo-lo houvera dito: pois vou. a preparar-vos o lugar... Virei outra vez e levar-vos-ei comigo para que onde eu estou estejais vós tam¬bém... Em verdade, em verdade vos digo que haveis ,de chorar e gemer e que o mundo se há de alegrar; e vós haveis de estar tristes mas a vossa tristeza se converterá em gozo... Eu hei de ver-vos de novo, e o vosso coração ficará cheio de gozo, e o vosso gozo ninguém vo-lo tirará" (Jo 14, 2-3; 16, 20-22).

Um outro evangelista refere, em termos semelhantes, estas consoladoras promessas de glória e felicidade: "Vós permanecestes comigo nas minhas tentações e por isso eu vos preparo o reino como meu pai o tem preparado para mim; para que comais e bebais à minha mesa no meu reino e vos senteis sobre tronos a julgar as doze tribos de Israel" (Lc 22, 28-30). Como se dissera: vós tomastes parte nas minhas tristezas sobre a terra, haveis de participar das minhas alegrias no céu; vós colaborastes nos meus trabalhos neste mundo, convosco dividirei, no céu, a minha herança e jurisdição, e haveis de descansar comigo no festim eterno que fará as vossas delícias sem nunca vos sentirdes fatigados. "Embriagar-vos-ei da abundância da minha casa e far-vos-ei beber na torrente das minhas delícias" (Ps 36, 9). O venerável Beda e outros Padres da Igreja, comentando estas palavras do nosso Salvador, declaram que o poder judicial e a glória atribuída aos Apóstolos não são privilégio exclusivo destes, mas hão de estender-se a todos os homens apostólicos que lhes sucederem.

Nós não podemos sondar os abismos da misericórdia e da terna bondade de Deus e portanto não somos capazes de compreender a imensidade da recompensa celeste que Ele nos promete. Essa recompensa há de medir-se não pelos nossos méritos, mas pelo amor infinito de Nosso Senhor. "Nem os olhos do homem viram nem os ouvidos ouviram nem o coração pode compreender o que Deus prepara àqueles que o amam" (1Cor 2, 9).

Os raios de glória celeste que inebriaram a Pedro, Tiago e João, a Paulo e Estevão, permitiu-os Deus para que em nós se acendesse um vivo desejo desse reino bem-aventurado que esperamos; do mesmo modo que a surpreendente descrição, feita pelos mensageiros que Moisés enviou a explorar. a terra prometida, serviu a insuflar nos israelitas um zelo novo pela conquista do país que lhes era destinado.

Regozijemo-nos, pois, como o Apóstolo, em nossas tribulações. "A tribulação produz a paciência; esta, a experiência; a experiência, a esperança; e esta não traz confusão" (Rm 5, 3-5). Não nos deixemos desalentar com os trabalhos, mas lembremo-nos de que "às penalidades da vida presente não têm proporção alguma com a glória vindoura que se manifestará em nós" (Rm 8, 18).

 

FONTE: O Embaixador de Cristo, Cardeal Gibbons, versão portuguesa do Côn. Tomás Fernandes Pinto (Gráfica de Coimbra Editora, 1947), com adequação/atualização redacional-ortográfica.

(*) A imagem que ilustra a matéria é de domínio público, e foi obtida da seguinte fonte:
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/3/38/GibbonsPhotoStanding.jpg

 

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