Nas pegadas do Apóstolo da Índia
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Nas pegadas do Apóstolo da Índia
Gustavo Adolfo Kralj - 2016/10/28

A distante e legendária Índia alberga vivas as recordações da passagem de São Tomé por aquelas paragens. Ao percorrê-las sentimos de algum modo o fogo evangelizador do ardoroso discípulo.

Gustavo Adolfo Kralj

Antes de iniciar estas linhas, convidamos nossos leitores a fazer voar sua imaginação até meados do primeiro século de nossa era, quando, por ação do Apóstolo São Tomé, nascia no continente asiático uma das Igrejas mais antigas da Cristandade. E para melhor realizarmos este exercício histórico, comecemos por analisar quem era esse ardoroso discípulo de Cristo.

Apóstolo atirado e incrédulo

Homem de temperamento franco, Tomé não vacilava em questionar Jesus caso tivesse alguma dúvida, o que, por sinal, dava ocasião a respostas maravilhosas do Divino Mestre.

Durante a Última Ceia, por exemplo, quando Nosso Senhor afirma que irá preparar-lhes um lugar a fim de que estivessem com Ele, pois conheciam o caminho para onde iria, não hesita em perguntar: "Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos conhecer o caminho?" (Jo 14, 5). E para atender o pedido do fogoso discípulo, Jesus formula uma das mais belas explicações teológicas a respeito de Si mesmo que podemos encontrar nas Sagradas Escrituras: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim. Se Me conhecêsseis, também certamente conheceríeis meu Pai; desde agora já O conheceis, pois O tendes visto" (Jo 14, 6-7).

Não havendo presenciado a primeira aparição do Senhor Ressuscitado, Tomé se negou a dar crédito ao testemunho dos outros discípulos: "Se não vir nas suas mãos o sinal dos pregos, e não puser o meu ­dedo no lugar dos pregos, e não introduzir a minha mão no seu lado, não acreditarei!" (Jo 20, 25).

E quando aparece novamente aos Apóstolos, agora estando ele presente, Nosso Senhor dirige-Se ao incrédulo e o repreende com doçura: "Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé" (Jo 20, 27). Vencido, o Apóstolo responde: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20, 28).

Ide pelo mundo inteiro...


Dias depois o Divino Mestre parte para o Céu e, antes de fazê-lo, transmite aos discípulos a solene missão: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado" (Mc 16, 15).

Narra Eusébio de Cesareia1 que a Tomé coube viajar para a Partia, região nordeste do atual Irã. Acrescentam outras fontes que, de início, ele se mostrou algo reticente em empreender tal aventura, mas certa noite o Senhor lhe apareceu dizendo: "Não temas Tomé, vá para a Índia e prega a Palavra, pois minha graça estará contigo".2

Por providência divina, naqueles dias um mercador chamado Habban fora enviado a Jerusalém por um rei da Índia, de nome Gondofares, a fim de contratar um arquiteto para a construção de um novo palácio. Logo Tomé entrou em contato com o mercador e partiu com ele para terras indianas.

Evangelizando a Índia

Conta a Tradição que o Apóstolo e Habban chegaram ao porto de Cranganore, no sudoeste da Índia, no ano de 52. Daí seguiram para Mylapore, próximo de Madrás - atual Chennai -, onde se apresentaram ao poderoso rei Gondofares.

São Tomé aceita o encargo de construir o novo palácio. Decidido o local e o projeto arquitetônico, o Apóstolo garante que o palácio ficará pronto em seis meses. O rei lhe entrega grande soma de dinheiro como adiantamento e vai visitar outras províncias de seus domínios.

Nosso Santo, por sua vez, em vez de iniciar os trabalhos da edificação contratada, decide distribuir o dinheiro aos necessitados. E viaja por várias regiões da Índia, segundo alguns chegando "até a China, para pregar a Boa-nova",3 e retornando para encontrar-se com Gondofares no prazo estabelecido.

O monarca o recebe enfurecido, cobrando explicações por não haver nem vestígio do palácio encomendado. O Apóstolo responde que, de fato, o palácio fora construído de acordo com os desígnios do rei. Mas não era visível, porque se encontrava no Reino dos Céus. Indignado por se julgar ludibriado, Gondofares manda amarrar Tomé e Habban e lançá-los num caldeirão de azeite fervendo. Espanto geral... Eles saem ilesos do tormento!4

Não sabendo o que fazer, Gondofares manda prendê-los numa masmorra, enquanto cuida de uma tragédia familiar: a morte repentina de seu irmão Gad. Este é levado pelos Anjos ao Céu, onde eles lhe mostram os mais fabulosos palácios. Um, em particular, se destaca dos demais por sua beleza e riqueza: suas paredes de ouro são ornadas de diamantes e outras belíssimas pedras preciosas. Gad deseja adquiri-lo, mas o Anjo que o guardava avisa que já tem dono: o palácio fora construído por São Tomé para o rei Gondofares.5

Gad, então, pede permissão para retornar ao mundo dos vivos para comunicar ao irmão aquela maravilha. Ressuscitando, Gad narra ao monarca a história do palácio construído por Tomé e o rei manda, de imediato, soltar os prisioneiros, aceita a nova Religião e junto com seu irmão é batizado pelo Apóstolo.

Em seguida, Tomé se retira para Kerala, na costa sudoeste da Índia, onde permanece até o ano de 69. Conforme as tradições locais, nesse período, Tomé fundou 7 igrejas e converteu 18 mil pessoas, que constituíram as primeiras comunidades católicas indianas, as quais perduram até nossos dias.

Mylapore e a pequena gruta de São Tomé


Dirigiu-se ele, depois, para o leste, para a costa de Coromandel, localizada no lendário Golfo de Bengala. Estabeleceu-se no reino de Mylapore, nos arredores da atual Chennai, capital do estado de Tamil Nadu. Ali se encontram santuários relacionados com a epopeia do Apóstolo da Índia, como veremos adiante.

Mylapore, hoje chamada Santhome em homenagem ao Apóstolo, foi cenário das pregações e milagres deste varão de Deus. A popularidade crescente do Santo despertou a inveja dos brâmanes e outros representantes das seitas locais. Da hostilidade passaram à perseguição física, tentando inclusive matar o Apóstolo. Para fugir de tais investidas, São Tomé se escondia numa gruta das proximidades.

Descoberto em seu esconderijo pelos brâmanes, o Apóstolo foge milagrosamente, cavando com as próprias mãos uma saída na parede de rocha, conservada até hoje com as marcas atribuídas às mãos e aos pés do Santo. Acossado ­pelos perseguidores, Tomé se dirige ao alto do monte, onde foi cercado e quase morto pelos inimigos da Fé. Mas ainda não havia chegado sua hora.
Algum tempo depois, neste mesmo local, a 3 de julho de 72, o Apóstolo da Índia deparou-se com um grupo de brâmanes que se dirigia a um templo para oferecer sacrifícios às divindades pagãs. Furiosos, quiseram obrigar o Santo a participar do culto. Tomé não apenas se recusou a tal, mas traçou um grande Sinal da Cruz em direção ao templo, destruindo-o assim, naquele instante. Indignados, os brâmanes o mataram, ­transpassando-o com uma lança.

O Monte de São Tomé

Por ordem do Rajá Mehadevan, o corpo de São Tomé foi sepultado em Mylapore e, mais tarde, no lugar do martírio foi construído o Santuário do Monte de São Tomé, que perdura até nossos dias e de onde se avista um cenário paradisíaco.

Tem-se acesso a ele por uma escadaria de 150 degraus. Junto ao santuário se encontra a Capela de Nossa Senhora da Expectação, construída pelos portugueses em 1547. No altar principal da capela pode-se venerar a Cruz talhada na rocha pelas mãos do Santo. De acordo com os registros históricos da época, ela costumava suar sangue e água todos os dias 18 de dezembro de cada ano. O prodigioso fenômeno foi observado de 1558 até 1704.

Ao lado do altar pode-se venerar a pintura atribuída a São Lucas representando a Santíssima Virgem Maria e o Menino Jesus, realizada em vida de Nossa Senhora. A preciosa relíquia fora levada à Índia por São Tomé. Conta a Tradição que este Santo, pela grande devoção que tinha à Mãe de Deus, pedira a São Lucas o retrato, antes de partir para aquelas longínquas terras.
Encontra-se também no altar a relíquia de um dedo de São Tomé, e nas paredes laterais podem-se admirar pinturas antiquíssimas dos doze Apóstolos, segundo as tradições do rito siríaco, de autoria de Pedro Uscan.

Imponente basílica em honra do Apóstolo

Pouco tempo depois da morte de São Tomé, a população estava alvoroçada: Vijayan, filho do rajá, se encontrava em perigo de morte. Todo esforço médico parecia inútil. Mehadevan decide, então, tomar o príncipe moribundo e levá-lo junto ao túmulo do Apóstolo da Índia. Ao se abrir a sepultura, o jovem é curado!

Em homenagem ao Santo foi erigida no local uma imponente basílica, uma das três no mundo a albergar o jazigo de um Apóstolo. São elas: a de São Pedro, em Roma; a de Santiago, em Compostela, na Espanha; além desta, a de São Tomé, em Mylapore, Índia.

Depois disso, ao longo dos séculos, o túmulo de São Tomé foi aberto apenas em três ocasiões: entre 1222 e 1225, quando as relíquias do Apóstolo foram enviadas a Ortona, na Itália; em 1523, para a reconstrução da basílica, empreendida pelo rei de Portugal; e em 1729, quando uma luz celestial emanava do jazigo do Santo. E desde o século VI há registros de peregrinos que estiveram na basílica, incluindo o famoso Marco Polo, em 1292. A construção ­neogótica atual data de meados do século XIX.

Muito simbolicamente confluem na basílica de Mylapore as pegadas de dois insignes missionários, gigantes da Fé: São Tomé e São Francisco Xavier. Ambos, a seu tempo, marcaram a legendária Índia e a História da Igreja no Oriente com o perfume de sua santidade, a ousadia de suas metas e seu incomparável zelo apostólico. 

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