“Como Eu vos tenho amado”
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“Como Eu vos tenho amado”
Ir. Emelly Tainara Schnorr, EP - 2016/11/30

Quando o vício e o pecado reinam sobre o mundo, como funestas decorrências do egoísmo, a humanidade necessita de uma renovação que lhe mostre o verdadeiro sentido de sua existência.

Ir. Emelly Tainara Schnorr, EP

Ao contemplarmos nas Sagradas Escrituras os primórdios da humanidade, vemos como os acontecimentos parecem tomar rumos inesperados.

Expulsos do Paraíso depois da queda original, Adão e Eva tiveram dois filhos: Caim e Abel (cf. Gn 4, 1-2). Ambos cresceram sob o olhar atento e os cuidados dos pais, que se esmeravam em incutir-lhes na alma os ensinamentos recolhidos no Jardim do Éden. No entanto, Adão e Eva espantavam-se com a diferença entre eles: o mais velho era "violento, [...] orgulhoso e vingativo", enquanto o mais novo era "doce e pacífico, [...] piedoso e justo".1

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Com a morte de Abel iniciava-se o
horrendo caminho que boa parte dos
homens trilharia ao longo dos tempos

Caim mata o seu irmão Abel
Catedral de Sligo (Irlanda)

Com o passar do tempo, o primogênito se tornou agricultor e o segundo, pastor de ovelhas. Ao apresentar seus sacrifícios a Deus, o inocente Abel ofertava as primícias de seus rebanhos e a carne mais suculenta das vítimas, merecendo o agrado do Criador. Caim, contudo, oferecia os frutos da terra que não lhe faziam falta, e estes eram rejeitados pelo Senhor. Por isso, inflamou-se ele de cólera e inveja contra seu irmão, culminando no primeiro fratricídio da História (cf. Gn 4, 3-8).

Funestas decorrências do egoísmo


O que o teria levado a tornar-se um assassino?

Caim se mantinha, na aparência, cumpridor dos seus horários e deveres. No interior, porém, estava cheio de egoísmo. Buscava chamar a atenção de Eva e procurava ouvir do pai: "Que bom filho eu tenho!". "Queria o elogio, o incenso, o consolo de ser benquisto e bem-visto. Mas, no fundo, ele fazia todas as coisas por amor-próprio",2 e foi o que acabou por levá-lo a matar o irmão. "Egoísta, filho do pecado e levando as marcas do pecado dentro da alma, ele era um homem que fazia as coisas por puro interesse".3

Ora, como o próprio Nosso Senhor declarou a Santa Catarina de Sena, tal defeito tem consequências funestas: "O egoísmo, que é a negação do amor pelo próximo, constitui-se como razão e fundamento de todo mal. Ele é a raiz dos escândalos, do ódio, da maldade, dos prejuízos causados aos outros".4

Com a morte de Abel iniciava-se o horrendo caminho que boa parte dos homens trilharia ao longo dos tempos. Basta corrermos os olhos pelas páginas bíblicas para nelas encontrarmos inúmeros exemplos de egolatria e desprezo pelo próximo. No decorrer dos séculos, os homens se afastaram da virtude, caindo nas piores selvagerias e crueldades.
Antes de nascer Jesus, o vício e o pecado reinavam sobre o mundo e a humanidade necessitava de uma renovação que lhe desse sentido à existência.

Renovação da Terra e divisão da História

Chegada, por fim, "a plenitude dos tempos" (Gal 4, 4), numa fria e rústica gruta junto à cidade de Belém nascia um Menino, trazendo a solução para todos os nossos males. Ele veio não só para reparar o pecado e curar as mazelas que dele decorrem, como também para elevar os homens a um novo grau de santidade, inimaginável na Antiga Aliança.

É o que afirma Mons. João Scognamiglio Clá Dias em um dos seus célebres comentários ao Evangelho: "Já em seu nascimento, numa singela manjedoura, aquele Divino Infante reparava os delírios de glória egoísta sofregamente procurada pelos pecadores. Ele Se encarnava para fazer a vontade do Pai e, assim, dar-nos o perfeitíssimo exemplo de vida".5

Emanavam d'Ele afabilidade, doçura, um desejo enorme de fazer o bem, uma sede ardente de perdoar, atraindo todos a Si e incutindo-lhes confiança. Cristo ia promovendo uma renovação dos costumes e modos de ser dos homens de todas as condições, de todos os tempos e nações: "Nosso Senhor Jesus Cristo [...] pregou no mundo o amor ao próximo. E, sobre esta base inteiramente nova, Ele renovou a Terra, a tal ponto que a História ficou dividida em dois grandes períodos: a era anterior ao nascimento d'Ele e a Era Cristã".6

E esta foi sua atitude durante toda a vida terrena: um abismo de bondade, amor e misericórdia.

Renovador fogo do amor divino

Sem embargo, já a Lei Mosaica determinava: "Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças" (Dt 6, 5). E ainda acrescentava: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19, 18). Dir-se-ia, então, não haver novidade no ensinamento do Salvador.

O Divino Mestre, porém, ampliou este preceito quando disse: "Dou-vos um novo mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros" (Jo 13, 34). A partir daquele momento não bastava amar ao próximo: era necessário amar como Ele amava.

Nascimento de Jesus - Basílica da Natividade, Belém (Israel).jpg
Ele veio não só para reparar o pecado como também para elevar os homens
a um novo grau de santidade

Nascimento de Jesus - Basílica da Natividade, Belém (Israel)

"Ele nos amou para que nos amemos mutuamente",7 sublinha Santo Agostinho. "Este amor, irmãos caríssimos, renovou já então os justos da Antiguidade, os patriarcas e os profetas, como renovou depois os Apóstolos, e é o que também agora renova todos os povos, forma e congrega todo o gênero humano que se espalha pelo orbe, fazendo dele o povo novo [...]. Ouvem e observam o ‘mandato novo que vos dou, de amar-vos uns aos outros', não como se amam os homens por ser homens, mas como se amam por ser ‘deuses' e filhos todos do Altíssimo, para que sejam irmãos de seu único Filho, amando-se mutuamente como o amor com que Ele nos amou, e conduzi-los ao fim que os sacie e satisfaça todos os seus desejos".8

Nosso Senhor nos convida, portanto, a ter um amor pelo próximo levado ao ponto de, se preciso for, entregar-lhe a vida, como Ele mesmo o fez. Seguindo seu exemplo, amemo-nos uns aos outros por amor a Deus, levando a todos a luz da salvação. Deste modo, nosso mundo, tão egoísta e afastado dos preceitos divinos, será também renovado pelo fogo do amor divino, trazendo-nos uma nova era, como nos tempos de Jesus. (Revista Arautos do Evangelho, Setembro/2016, n. 177, pp. 36-37)

1 BERTHE, CSsR, Augustin. Relatos bíblicos. Porto: Civilização, 2005, p.24.
2 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Homilia da Quinta-feira da I Semana do Tempo do Natal. Caieiras, 5 jan. 2006.
3 Idem, ibidem.
4 SANTA CATARINA DE SENA. O Diálogo. 8.ed. São Paulo: Paulus, 2004, p.38.
5 CLÁ DIAS, EP, João Scognamiglio. Paz! Onde estás? In: O inédito sobre os Evangelhos. Città del Vaticano-São Paulo: LEV; Lumen Sapientiæ, 2012, v.V, p.105-106.
6 CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. A Igreja: formadora de uma civilização. In: Dr. Plinio. São Paulo. Ano IV. N.41 (Ago., 2001); p.16.
7 SANTO AGOSTINHO. In Ioannis Evangelium. Tractatus LXV, n.2. In: Obras. 2.ed. Madrid: BAC, 1965, v.XIV, p.299.
8 Idem, n.1, p.297-298.

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