Um jovem cheio de luz
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Um jovem cheio de luz
Ir. Maria Beatriz Ribeiro Matos, EP - 2016/12/19

Michel mordeu os lábios e temeu revelar suas convicções àquele desconhecido. Se fosse um dos revolucionários, uma afirmação imprudente poderia custar-lhe a vida...

Corria tranquilo o ano de 1777 na pequena vila de Bouzillé, nos domínios dos senhores de Bonchamps. Michel Pajot, de apenas seis anos, lá vivia no seio de uma família fervorosamente católica, numa casa simples e aconchegante, embora não fosse rica.

A senhora Pajot, sua extremosa mãe, ensinara ao pequeno a tradicional oração a este bondoso amigo de todas as horas: "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador...", e assegurava ser São Miguel o seu padroeiro, de quem lhe havia tomado o nome, consagrando-o a ele desde o nascimento. Todos os dias, antes de dormir, o menino se ajoelhava e repetia a prece.Em seu quarto não se encontrava mais adorno que um belo quadro, presente da senhora de Bonchamps para sua avó. Retratava uma criança que, ao atravessar uma ponte carcomida pelo tempo, punha seu pezinho em uma das fendas da madeira, arriscando-se a cair num rio de tão forte correnteza que sua espuma branca o cobria de margem a margem. Ao lado da criança, sorridente e prestativo, achava-se um Anjo, pronto para socorrer seu protegido.

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A senhora Pajot ensinara ao pequeno a tradicional
oração a este bondoso amigo de todas as horas

Decorrido o tempo, o quadro foi retirado do quarto de Michel, pois já não condizia com sua idade. A partir de então, com frequência o rapazinho esquecia-se de rezar ao Anjo e o convívio com seu protetor ficou nas brumas da infância.

Quando Michel contava 21 anos, a impiedade e a perseguição se espalharam por toda a França, e o remoto povoado de Bouzillé não ficou alheio a elas. O sino da igreja emudeceu, as crianças não mais acorriam à sacristia para receber o ensino elementar, e até tinham receio de ficar brincando pelas ruas. Depois de sofrer muitas humilhações, o ancião e bondoso sacerdote da matriz acabou sendo preso pelos jacobinos e levado da aldeia.

Numa manhã de domingo, pesaroso por não ter podido assistir à Missa na igreja paroquial, transformada em armazém pelos revolucionários, Michel saiu de casa a fim de recolher algumas batatas para o almoço. Preparava-se ele para deixar a horta, quando uma voz desconhecida o chama:

- Jovem!

Virando-se, viu um homem de meia-idade. Vestia-se como um camponês, apesar de seu sotaque não ser do campo...

- Estou de viagem, caminhei toda a noite e preciso repousar alguns instantes. Aceitar-me-iam em sua casa?

Tal pedido não era esperado, muito menos nas circunstâncias do momento... Como dar hospedagem a um estranho em época de tantos temores? Perguntou-lhe o rapaz:

- Quem é o senhor e de onde vem?

- Sou Pierre e venho dos arredores de Nantes - respondeu o desconhecido.

- E como vão as coisas por aquelas terras?

- Dias tristes e "céu nublado"...

Michel entendeu que o desconhecido empregava termos metafóricos. Por sua linguagem, o homem não era adepto dos perigosos revolucionários. Quem sabe era um homem de Fé? Respondeu-lhe no mesmo tom o jovem agricultor:

- Pois bem, meu amigo, aqui em Bouzillé o céu "promete chuva", mas ainda temos réstias de luz... Que tal procurarmos sombra dentro de casa?

Entrou com Pierre, que observou, sob uma imagem da Virgem, um pequeno papel no qual estava escrito em letras quase infantis "Dieu et le roi - Deus e o rei". Eram as intenções das orações familiares: a glória de Deus e a libertação do monarca francês, recém-encarcerado pela revolução. Indicando o altarzinho, o inusitado visitante disse:

- Sua família é bem católica, hein?

Michel mordeu os lábios e temeu revelar suas convicções ao desconhecido. Parecia boa pessoa, no entanto, poderia ter sido enviado pelos jacobinos... Uma afirmação imprudente poderia custar-lhe a vida!

- Não se preocupe - continuou Pierre -, hoje mesmo você poderá assistir a uma Santa Missa. Pode me fornecer um pouco de vinho e pão?

Atônito, Michel não sabia o que dizer. Quem era aquele homem que prometia uma Missa, se o pároco estava preso, segundo diziam, numa das infectas galeras de La Rochelle?

Diante de sua hesitação, o forasteiro abriu a bolsa e de lá tirou o material necessário para o Santo Sacrifício: um pequeno cálice e uma patena dourados, alfaias litúrgicas simples, mas muito limpas, uma estola bordada com cruzes e uma casula cuidadosamente dobrada. Não precisava mais explicações. Chamou os pais e todos assistiram com suma piedade à Missa daquele sacerdote fugitivo.

No momento da homilia, o padre Pierre dirigiu-se ao rapaz:

- Michel, não vim a esta casa por acaso. Viajava já em direção a Marselha quando um jovem fora do comum começou a caminhar do meu lado. Suas palavras me cativaram e, embora parecesse uma loucura, aceitei sem hesitar o pedido que me fez de mudar meu percurso, a fim de celebrar uma Missa aqui. Ele dizia chamar-se Miguel e ser muito amigo de sua família.

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Quando uma chusma enraivecida quis profanar a imagem da Mãe de Deus, Michel
lutou como um leão para defendê-la

A devoção da infância inflamou-lhe novamente o coração. Com o tempo, ele se esquecera de seu santo protetor, mas o grande São Miguel jamais deixara de estar a seu lado. Chorando de emoção, recebeu ele a Sagrada Eucaristia e, terminada a celebração, fez uma longa Confissão, declinando ao sacerdote sua ingratidão e frieza. No dia seguinte, despediu-se dele comovido.

Passaram-se alguns meses e o "céu nublou-se" também em Bouzillé... Alguns dos jovens mais valentes do lugar fugiram para não serem alistados à força nas milícias revolucionárias; outros, menos corajosos, renunciaram à Religião dos seus maiores, como preço de sua permanência na aldeia.

Michel ficou no povoado, porém, sem renegar a Fé. Cheio de confiança na ajuda do seu angélico protetor, nada temia. E quando uma chusma enraivecida de jacobinos quis profanar a imagem da Mãe de Deus, que ainda era venerada na matriz por alguns aldeões mais intrépidos, lutou como um leão até a morte para defendê-la. Graças à sua heroica resistência, umas piedosas senhoras conseguiram escondê-la em local seguro.

Conta-se em Bouzillé que, ao receber o golpe mortal, Michel caiu com serenidade e ainda fez com desembaraço um grande sinal da Cruz. Ao seu lado, alguns viram que um jovem cheio de luz o segurava com delicadeza e, logo que exalou o último suspiro, conduziu sua bela alma para o Céu. (Revista Arautos do Evangelho, Setembro/2016, n. 177, pp. 46-47)

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