banner plinio2 (1).jpg

Ao entrar na adolescência, Plinio enfrentaria suas primeiras batalhas
espirituais para perseverar na prática da virtude, diante das tentações
próprias à idade e da brilhante carreira que se abria diante de si.

No segundo volume da obra são ressaltados os aspectos mais salientes das lutas que marcaram a adolescência e juventude de Dr. Plinio, período no qual seu dom de sabedoria enriqueceu-se com um caráter ainda mais combativo, e sua fé multiplicada pela fé manifestou-se na disposição de transpor qualquer obstáculo para que o mal fosse derrotado.

Ao preparar seus mais jovens discípulos para enfrentar a vida, Dr. Plinio costumava ensinar que certos problemas, quando se apresentam, se não forem superados à luz do ensinamento da Santa Igreja Católica voltarão em todas as épocas da existência de modo cada vez mais trágico e insolúvel. Entre estes destacam-se aqueles que surgem com a puberdade, particularmente no que diz respeito à angélica virtude da pureza. Será esclarecedor conhecer como o jovem Plinio resistiu e venceu as viscosas solicitações da carne, arrostando as adversidades com toda a determinação.

“Uma verdade apresentada sob uma falsa luz

         Tinha Plinio apenas nove ou dez anos quando, mesmo antes de sua entrada no Colégio São Luís, um primo mais velho e outros companheiros de infância revelaram-lhe, de forma maliciosa, assuntos relativos à vida matrimonial que devem ser tratados com toda a delicadeza e prudência. Ele logo percebeu o que havia de repugnante nisso pois, como diria mais tarde, "tal era a impiedade a lhes escorrer pela boca como uma saliva imunda, que no meu juízo eles iriam mentir. [...] De fato, as palavras deles eram de mentira, embora me dissessem a verdade, por apresentarem essa verdade sob uma falsa luz".

Da Lucilia em meados da década de 1920.jpg
"Ela era o parapeito que me resguardava
do abismo, era o muro que me separava
das regiões obscuras e nefandas
do meu próprio ser"

Da. Lucilia em meados da década de 1920

Para Plinio, isso significou um choque tremendo pois, em sua simplicidade e candura, seu conceito da virtude parecia ter desabado, não passando de uma bela fachada para ocultar as misérias de uma humanidade ignóbil e hipócrita. Pior ainda, aqueles meninos sabiam bem que o tema tratado permaneceria na sua memória e, portanto, voltaria com a fortíssima atração que lhe é própria. Deste modo, era-lhe oferecido "dentro de uma taça asquerosa, um prazer porco, mas agradável e até inebriante: ‘Plinio, beba-o!'".

Todavia, a retidão de juízo decorrente do dom de sabedoria permitiu a Plinio tomar a atitude mais perfeita exigida no momento: de forma peremptória e com indignação, rejeitou ele o estado de espírito daqueles que depois qualificaria com precisão como apóstolos da impureza, pois percebia quanto a aceitação desse convite o levaria a romper com algo que não era capaz de definir, mas cujo efeito seria "apagar com pedradas uma série de luzes"3 que sentia acesas dentro de si. Eram, segundo sua expressão, "as luzes da inocência".

Firme resolução de resistir

Encerrado este episódio dramático, durante certo período ninguém voltou a levantar-lhe o desagradável assunto, que ficou posto de lado. Mais adiante, Plinio foi procurar esclarecimento onde melhor o poderia receber: dos lábios de um ministro da Santa Igreja. Um padre jesuíta explicou-lhe de modo conveniente à sua idade a doutrina católica a respeito da excelência da virgindade e da honestidade da união matrimonial.

Elucidada a questão doutrinária, tratava-se de, na prática, não ceder em nada, sobretudo porque no contexto em que ele vivia as tentações chegavam com grande violência e com facilidade fariam soçobrar a nave de sua alma, como ele relataria: "A batalha foi penosa. Não quero dar de mim mesmo a ideia ilusória de um jovem angélico, que nunca teve a baixeza de sentir os estímulos da carne. Não me foi fácil preservar a virgindade! Eu, tão pacífico e tão calmo, via em meu caminho uma fenomenal luta que parecia não acabar mais, para manter o estado de graça. Que enorme e pavorosa dificuldade! Mas tinha a firme resolução de resistir, custasse o que custasse".

Esta determinação era árdua, pois, além do aguilhão da própria concupiscência, ele presenciava a cada instante todos os seus companheiros e familiares, ao tomar como ele conhecimento da matéria, sucumbirem às solicitações do pecado e mudarem logo de mentalidade. Fixados esses meninos no desprezo à Lei de Deus, Plinio, por sua fidelidade, ia ficando cada vez mais excluído de seu ambiente. 

O parapeito que resguardava Dr. Plinio do abismo

A dificuldade não consistiria tão só no resistir à atração interna do pecado, e sim nas consequências que esta deliberação lhe acarretaria ao entrar nas perigosas galas da sociedade paulista. Se ele não soubesse conduzir-se com prudência na conservação de sua pureza, um manto de repulsa cairia sobre ele como a lhe dizer: "Você vai ficar um cretino, vai ser um estúpido, todo mundo vai rir de você".

          “Imolar-se estando sujeito ao desprezo geral é um verdadeiro holocausto. Plinio estava pronto para suportá-lo por amor a Deus. Contudo, como ele vislumbrava em sua vocação o aspecto de homem público, se isto acontecesse "nunca poderia fazer nada pela Igreja, porque um homem desmoralizado e de quem todo o mundo dá risada é um homem que nunca poderá liderar nada, jamais poderá aparecer, ficará à margem de tudo. [...] Quer dizer, uma perseguição se colaria em mim até o fim de meus dias",7 concluía.

 

Essa situação dramática duraria até seu ingresso no Movimento Católico, e constituiu uma fase de provações tremendas. Nesse período o papel de Da. Lucilia foi decisivo para sua perseverança: "Ela era o parapeito que me resguardava do abismo, era o muro que me separava das regiões obscuras e nefandas do meu próprio ser, e era, portanto, a minha própria defesa".

"Como é bela a inocência!"

No fim da adolescência a vitória sobre a impureza era total, e a luz da inocência de Plinio resplandecia ainda com maior fulgor, como o ouro purificado no cadinho da provação. Em circunstâncias surpreendentes, tal luz brilhou inclusive aos olhos de alguém submergido de modo indigno no vício oposto. 

Quando Plinio concluiu o ciclo secundário, dedicou o ano de 1925 a preparar os exames escolares do Estado, prévios ao curso universitário, pois ele havia frequentado uma escola privada e, segundo a legislação da época, devia prestá-los se queria ter seus estudos oficialmente reconhecidos.

Para esse fim, escolheu a cidade de Ribeirão Preto. Lá, por diversos imprevistos, teve de hospedar-se num hotel, junto com um rapaz paulista, conhecido seu, de costumes licenciosos. Chegada a noite, Plinio recolheu-se cedo, mas um temor o assaltava: seu companheiro de quarto não aparecia, provavelmente por estar em maus lugares. E ele bem poderia apresentar-se ali em péssima companhia... o que de fato aconteceu.

Já era tarde quando um vozerio vindo do corredor despertou Plinio. Logo percebeu que alguém se aproximava... eram passos de duas pessoas e na conversa distinguiu uma voz feminina. Seu conhecido e uma mulher de má vida ali ingressariam, decerto com intenções indecentes em relação a ele. Como sairia incólume dessa situação? Se fosse preciso, haveria de brigar! Encomendou-se a Nossa Senhora e resolveu fingir um sono profundo.

Dr Plinio (em destaque) entre os formandos da Faculdade de Direito.jpg
Desoladora era a situação em que Plinio se encontrava, sozinho para enfrentar a luta contra a impiedade
que dominava o ambiente

Dr. Plinio (em destaque) entre os formandos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no ano de 1930

Ao entrarem no quarto, acercaram-se da cabeceira da cama, pois a mulher manifestou o desejo de vê-lo de perto. Parecia quase chegada a hora de intervir quando, de repente, ela exclamou com pronunciado sotaque luso:

- Veja como ele dorme!... Como é bela a pureza! Como é bela a inocência! Como dorme a inocência!

E, não ousando ofender aquele contra quem pouco antes dirigia seus maus propósitos, preferiu abandonar o aposento sem deixar de repetir pelo corredor esse testemunho que, embora viesse do fundo da lama, era franco e certeiro.

O Congresso da Mocidade Católica

Tendo-se inscrito na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, desoladora era a situação em que Plinio se encontrava, sozinho para enfrentar a luta contra a impiedade que dominava o ambiente. "O meu isolamento era muito grande e era penoso, pois eu não tinha um amigo que pensasse como eu".9 Longe estava de suspeitar que logo se depararia com aquilo que procurava, e seu heroísmo seria premiado.

Em setembro de 1928, passando pela Praça do Patriarca,10 Plinio viu uma faixa que tomava todo o exterior da Igreja de Santo Antônio, anunciando o Congresso da Mocidade Católica.

O que ele sentiu nesse momento? Ficou maravilhado, como se lhe caísse um pedaço dos Céus nas mãos! "Tive a impressão de me haver aparecido um Anjo!".11 Juventude católica? Ele jamais imaginara que existisse algo semelhante! Acreditava sinceramente ser o último jovem católico em São Paulo! No dia seguinte dirigiu-se ao secretariado do congresso e alistou-se, movido por forte esperança.

No Congresso da Mocidade Católica, Plinio foi informado, com grande surpresa de sua parte, da pujança das Congregações Marianas, ponta de lança do fervor católico entre os leigos de São Paulo. E, ainda durante o congresso, resolveu nelas alistar-se. Assim Plinio entrou para o Movimento Católico. Desfazia-se de repente aquele aflitivo isolamento que havia transformado a sua existência num terrível deserto, raiava para ele uma aurora de esperanças, e seus desejos e anseios poderiam, afinal, realizar-se!

Mais Mais tarde ele mesmo explicaria o que sentiu nessa ocasião e o cântico de exultação a jorrar de sua alma: "Seria como um cruzado que empreende a viagem, mas não conhece o caminho. Erra por muitos lugares, sem chegar a entender qual seja o sulco a seguir. Em determinado momento, avista uma estrada e exclama: ‘É por lá que eu chego até o mar, onde estão as naus que me levarão à Terra Santa!'. Isso deu-se comigo. E pensei: ‘Daqui para a frente, irei para minha Jerusalém! Batalharei com força, mas a via está encontrada: esta é minha luta contra a Revolução. Agora é só viver e lutar!'"

Rompimento com o mundo: a Via-Sacra do desafio

Plinio sabia, entretanto, que em seu círculo social nada havia de mais ridículo para um jovem do que ser católico praticante. Ao cabo de pouco tempo, seria de fato desconsiderado pela opinião mundana, mas encontrava-se plenamente decidido na sua renúncia a tudo quanto pudesse significar prestígio terreno. Porém, apesar de tão ardoroso propósito de fidelidade, enganar-se-ia quem julgasse tratar-se de uma vitória fácil. 

Reconhecendo em si a fraqueza inerente a todo homem e temendo não possuir a coragem necessária para enfrentar as consequências que sua determinação acarretaria, tomou ele uma resolução heroica: desmascarar-se. De que modo? "Romper com tudo de uma vez e declarar-me congregado mariano, católico apostólico romano, aos olhos de todo o mundo, dando um passo que não me permitisse voltar atrás".

Longe de evitar a explosão do escândalo, Plinio faria tudo para causá-la, e escolheria cuidadosamente a ocasião e o cenário da grande ruptura.

No domingo, às dez horas da manhã, inicia-se na Igreja de Santa Cecília a assim chamada "Missa elegante", por ser a mais frequentada pelas famílias dos bairros Campos Elíseos, Higienópolis e proximidades, todas conhecidas entre si. A alta sociedade de São Paulo enche o pequeno templo.

Já havendo assistido à Santa Missa naquele dia, Plinio volta à igreja e, pouco antes da entrada do celebrante, posta-se numa das naves laterais, frente à primeira estação da Via-Sacra. Traz em suas mãos um pequeno devocionário e começa a percorrer os passos da Paixão, acompanhando a prece não apenas com ostensivos sinais da Cruz, mas também com aquilo que sequer as senhoras mais devotas se atreveriam a fazer em público: ajoelha-se diante de cada estação.

Concentração de congregados marianos e filhas de Maria.jpg
"A via está encontrada: esta é minha luta contra a Revolução. Agora é só viver e lutar!'"

Concentração de congregados marianos e filhas de Maria na Praça da Sé, São Paulo, na década de 1930

A cena é inacreditável, mas era esse o efeito desejado por Plinio. Sua virtude nessa ocasião alcançou, sem dúvida, o cume da audácia: 

"A dificuldade em romper era tão grande, que me sentia transpirando da cabeça aos pés, embora por natureza não seja dado a isso. Sabia que em tal banco estava esse, aquela, aquela outra e aquele outro... E sabia qual seria o comentário de cada um".14 E nem mesmo a respeito de sua família ele alimentava ilusões, pois já previa o estupor que reinaria entre seus parentes ao receberem notícias do acontecido.

Consolações e provas        

"Tendo entrado agora no Movimento Católico e rompido com o mundanismo, voarei em direção à realização dos meus ideais, como uma águia voa para o alto da montanha!",15 é o que pensava Plinio, conforme comentou mais tarde, em narrações sobre sua juventude.

Com efeito, na primeira etapa de uma vocação especial o Espírito Santo sustenta a alma com graças sensíveis, fazendo-a experimentar alegrias e júbilos interiores para lhe indicar o caminho a seguir e alimentar a expectativa do prêmio que receberá ao fim. Foi com essa alegria que Plinio iniciou sua militância na Congregação Mariana.

Essa brisa de consolação, porém, seria seguida da mais terrível provação de toda a existência de Plinio até aquele momento: "Foi uma prova tremenda, não contra a fé nem contra a caridade, graças a Deus, mas contra a esperança e a virtude da confiança".

É impossível, no exíguo espaço desta edição, dar todos os detalhes desse drama espiritual, que mostrou o altíssimo grau de virtude atingido por Plinio em sua juventude, assim como a delicadeza de sua consciência, própria de um grande Santo. Em síntese, pode-se dizer que certos escrúpulos relativos à sua total adesão à infalibilidade pontifícia e à fé na historicidade dos Evangelhos degeneraram num período de seis meses de tribulação, em que a hipótese de estar fora da Igreja o enchia de apreensão e de pavor, por preferir mil vezes morrer a ser expulso do regaço dela.

Dr Plinio trajando beca, por ocasião de sia formatura na Faculdade de Direito.jpg
"Eu tinha a certeza interior de possuir a missão
de restaurar a Civilização Cristã, a boa ordem
católica das coisas

Dr. Plinio trajando beca, por ocasião de
sua formatura na Faculdade de Direito

Finalmente, depois de receber uma graça mística insigne ao contemplar a elevação do cálice durante uma celebração do Santo Sacrifício, encerrou-se o período da provação contra a esperança. Movido por moções interiores, Plinio procurou um confessor, que lhe esclareceu seu caso de consciência com sabedoria e simplicidade. Iniciava-se uma nova fase, também de seis meses aproximadamente, durante a qual ele receberia verdadeiras chuvas de graças e passaria os dias mais deliciosos da vida.

A vida de Santa Teresinha      

        Nessa época chegou às suas mãos um livro cujo título lhe atraiu a atenção: História de uma alma, a autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, canonizada havia pouco.17 Começou imediatamente a leitura, tomando logo uma resolução explícita: "Eu quero ser santo!". 

Nessa leitura, Plinio passou a ver o bem incalculável que uma alma pode fazer à Igreja ao se oferecer como vítima expiatória. Ora, ele sentia o chamado da Providência para a realização de uma grande obra, que só mais tarde soube explicar: "Eu tinha a certeza interior de possuir a missão de restaurar a Civilização Cristã, a boa ordem católica das coisas. E sabia que, se agisse bem, cumpriria essa missão".18 Agora, porém, ao conhecer a imolação feita por Santa Teresinha, vislumbrava o valor de uma vida transcorrida na aridez e no sacrifício. 

Ele se convenceu de ser essa via de dores e provações a oração mais agradável a Deus, e d'Ele poder obter os maiores benefícios, por mais se assemelhar ao holocausto de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua Paixão. E também se ofereceu: "Se for vossa vontade receber-me como vítima, Vós me levareis. Se, pelo contrário, quiserdes que eu permaneça aqui, permanecerei, confiando-me aos vossos cuidados. Depende de Vós. Faça-se em mim segundo a vossa palavra (cf. Lc 1, 38)". Este oferecimento, por ele renovado diariamente, foi colhido aos poucos, ao longo dos oitenta e sete anos de sua vida. Bem pode ser ele considerado um verdadeiro martírio, cujos frutos ainda hoje vicejam no seio da Santa Igreja.

O "Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem" 

         Plinio havia adquirido o costume de rezar a Santa Teresinha do Menino Jesus. Assim, desejando atingir um novo patamar nas vias da santidade, resolveu iniciar uma novena a ela. Pediria a sua intercessão para obter duas graças, das quais sentia muita necessidade

.

Em primeiro lugar, que lhe indicasse de forma clara qual era o meio de avançar com vigor na devoção a Nossa Senhora. A segunda intenção era muito diferente. Plinio estava em difícil situação financeira. Por isso, tendo ouvido contar que iria correr em São Paulo uma loteria, pedia também a Santa Teresinha a graça de ganhá-la. Não desejava propriamente tornar-se rico, mas sim poder se dedicar por inteiro ao apostolado.

A partir de então nasceu nele um amor sempre crescente, de maneira que a Igreja foi sua paixão mais entranhada; amor puríssimo, desapegado; amor de escravidão que, entretanto, não o oprimia, mas lhe trazia liberdade!

A novena estava em seus últimos dias quando Plinio, folheando alguns volumes na livraria dos cordimarianos, teve sua atenção atraída por um escrito do então Bem-aventurado Luís Maria Grignion de Montfort: o Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem. Após uma breve hesitação, resolveu comprá-lo. Narrando o episódio mais tarde, ele afirmaria: "Eu não percebia que Santa Teresinha estava guiando o meu braço".

Ao ler as páginas do Tratado, Plinio tomou--se de entusiasmo e, sem perder uma letra, "de aclamação em aclamação",20 ia concluindo ser a obra de São Luís Grignion incomparável, portentosa e baseada na melhor teologia; aprofundava ela com largueza a doutrina sobre Maria Santíssima, de maneira a dar elevadíssima noção do papel d'Ela na ordem do universo. Recordaria Dr. Plinio: "Durante a leitura, eu às vezes parava e dizia: ‘Parece que esse homem está falando! Ele morreu há séculos, mas eu julgo sentir o impulso, a propulsão da alma dele no que ele diz aqui!'".21 Ao lê-lo, foi aprendendo na concordância eufórica de sua alma. Nunca pensou poder um livro exercer sobre alguém o efeito que aquele produziu sobre si. E ponderou: "Encontrei o livro de minha vida!".

 Entusiasmo pelo Reino de Maria  

Ao longo dos dias subsequentes, a leitura do Tratado foi se tornando um verdadeiro estudo, sério e profundo: "Minha alma saiu dessa leitura guarnecida por uma porção de ideias, de noções, de doutrinas, etc., que seria um não mais acabar, se as fosse contar todas".

D Jean-Baptiste Chautard.jpg
O efeito daquela leitura foi imediato: "Comecei a ler e percebi
que um céu se abria para mim!"

D. Jean-Baptiste Chautard, abade de Sept-Fons e autor
do livro "A alma de todo apostolado"

Porém, seu entusiasmo foi ainda maior ao fazer outra descoberta nas páginas que se sucediam diante dos olhos, segundo ele próprio narraria: "[Eram] labaredas sobre um assunto de que nunca ouvira ninguém tratar, mas me interessava no mais alto grau: o Reino de Maria. Logo percebi que esse Reino era a meta para a qual minha alma voava!".24 Entendeu ele que São Luís Grignion se referia, acima de tudo, ao governo de Nossa Senhora, Rainha dos Corações, sobre as mentalidades de todos os homens. Mas notou também que o autor do Tratado previa uma era histórica na qual a face da terra seria renovada e reformada pela Santa Igreja, e em que Maria Santíssima seria reconhecida universalmente como Soberana.

 A primazia da vida interior  

No início da década de 1930, mais de dois anos após seu ingresso nas Congregações Marianas, Dr. Plinio havia feito grandes progressos na vida espiritual. Entretanto, perguntava-se quais passos sua vocação agora lhe exigiria. Assim refletindo, decidiu explorar a pequena biblioteca de sua avó, à procura de alguma obra cuja leitura o ajudasse. Ao abrir a estante, deparou-se com um volume escrito em francês, por um autor cujo nome lhe parecia cheio de ressonâncias: Dom Jean-Baptiste Chautard, trappiste, abbé de Sept-Fons.

O efeito foi imediato: "Comecei a ler e percebi que um céu se abria para mim!". E percorreu as páginas de A alma de todo apostolado com comoção, entendendo haver encontrado uma das obras que constituiriam doravante a base de sua espiritualidade.

Foi a partir de tal leitura que Dr. Plinio fixou em sua rotina certos hábitos de devoção que observaria até o fim de seus dias: "No livro de Dom Chautard, as verdades sobre o papel da oração e da vida interior prevalecendo sobre as obras vinham expostas de modo magnífico! Era teologia da melhor e reforçou em mim a tendência e a preocupação pela oração. Foi então que comecei a comungar e a rezar o Rosário diariamente".

Outro aspecto de enorme importância nas determinações tomadas por Dr. Plinio com a leitura de A alma de todo apostolado foi a descoberta da humildade, matéria na qual sua luta seria árdua. De fato, para conquistar plenamente essa virtude ele deveria eliminar um primeiro obstáculo, imposto pela piedade adocicada reinante em certos ambientes católicos, segundo a qual o varão humilde era, por excelência, aquele que se apagava, se escondia e se calava, evitando qualquer atitude de ufania ou de combatividade contra quem quer que fosse. No entanto, a própria obra do abade de Sept-Fons lhe oferecia a fórmula ideal para a solução de tal problema. Dr. Plinio a entendeu de imediato e muitas vezes a repetiria ao longo de sua vida: "A humildade é fundamentalmente a virtude pela qual não procuramos atribuir a nós aquilo que pertence a Deus. Portanto, se convertemos alguém devemos entender que foi Deus, presente em nós, quem o fez".

A prática dessa virtude seria indispensável para a fidelidade de Dr. Plinio ao adentrar a via de glória que se abriria diante dele.

 É fundada a Liga Eleitoral Católica      

          Naqueles primeiros anos da década de 1930, Dr. Plinio teve conhecimento da existência de um organismo eleitoral católico ligado à política francesa, cujo objetivo consistia em apontar aos fiéis quais eram os candidatos aos cargos públicos que se comprometiam a lutar pelas reivindicações da Igreja. A fórmula encantou-o, pois vinha ao encontro da ideia de aproveitar-se da surpreendente expansão do Movimento Católico no Brasil para alterar o laicismo reinante. Dr. Plinio escreveu ao Dr. Alceu Amoroso Lima,29 líder da Mocidade Católica no Rio de Janeiro e homem de confiança do Arcebispo, o Cardeal Sebastião Leme,30 propondo-lhe o plano da fundação de um organismo eleitoral destinado a favorecer os interesses da Igreja no terreno da política e orientar o voto católico.

Acolhida com entusiasmo, a sugestão não tardou a se tornar realidade: em pouco tempo estava preparada a constituição da Liga Eleitoral Católica (LEC), com estatutos redigidos pelo próprio Dr. Plinio, a qual atuaria por meio de juntas diocesanas em todo o Brasil. Dr. Plinio foi escolhido pelo Arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva,31 como secretário estadual da LEC, pois era "a única pessoa em que confiava para o êxito da Liga".

Dr Plinio em meados de 1933, recém-eleito deputado.jpg
De todas as partes do estado crepitava a informação:
"Plinio Corrêa, na ponta!"

Dr. Plinio em meados de 1933, recém-eleito deputado

Foi desse modo que Dr. Plinio adentrou a carreira política. Escolhido também pela autoridade eclesiástica, ao serem convocadas as eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte recebeu a comunicação de que deveria candidatar-se a deputado federal e imediatamente obedeceu.

 O deputado mais jovem e mais votado do Brasil  

               Restava uma incógnita. Quais seriam, na prática, o prestígio e a força da Igreja nas urnas? Uma convicção, porém, era firme em seu espírito: entre os candidatos indicados pela LEC, era ele o único militante na força do termo, decidido a lutar pelas reivindicações católicas à custa de qualquer sacrifício. Portanto, era para ele uma obrigação imperiosa trabalhar com todo o empenho com vistas à própria eleição. Lançou-se então à campanha.

Por fim chegou a data do pleito: 3 de maio de 1933.

Nos dias subsequentes, de todas as partes do estado crepitava a informação, anunciada pelos jornais e repetida pelo público: "Plinio Corrêa, na ponta!". Qual foi a atitude dele, o grande interessado? "Minha votação ia crescendo, mas eu tinha acabado de ler o livro A alma de todo apostolado de Dom Chautard, e entendi que não alcançaria nenhum bom resultado para a Causa Católica como deputado, nem santificaria minha alma, se tivesse apego a esse cargo. Então, tomei a deliberação de não verificar os resultados no jornal". 

Certo dia, ao sair rumo à igreja, Dr. Plinio encontrou-se com sua irmã, que lia O Estado de São Paulo com especial atenção. Ela sorriu e lhe fez uma profunda reverência, dizendo em tom festivo:

- Senhor Deputado, meus parabéns!

Ele julgou tratar-se de um gracejo, mas ela exclamou:

- Só você para fazer isso! Não sabe que foi eleito? 

- Ah, muito bem! Mas não quero perder a Missa. Está na hora! 

Estava obtida a primeira grande vitória nessa peleja que ele vinha conduzindo durante longos anos, em favor de seu ideal. (Revista dos Arautos do Evangelho, Julho/2016, n. 175, pp. 24 a 31).

Plínio (1).jpg
 

Gostou desta página? Então comente e participe da nossa família! Se ainda não é usuário, basta se cadastrar. É simples, rápido e gratuito! Se já é usuário, basta fazer seu login.