Dr. Plinio: Vítima expiatória - A graça de Genazzano

Na década de 1960 a ingratidão e infidelidade dos seus discípulos levariam Dr. Plinio à maior provação de sua existência, seguida de um insigne favor sobrenatural que o sustentaria a vida toda.

Nas décadas de 1950 e de 1960, o Grupo de Dr. Plinio teve um grande incremento com a adesão de novos membros provenientes de famílias de imigrantes. Monsenhor João Clá se encontra entre estes. A injeção de sangue novo daria um impulso à consideração enlevada da missão de Dr. Plinio por parte de pessoas livres dos filtros que a comparação social e certa inveja de alguns de seus primeiros seguidores impunham até aquele momento.

Aos poucos ele foi sendo posto no centro das atenções do Grupo, cada vez mais admirado por seu profetismo, sua sabedoria e sua bondade. Tais movimentos de alma, inspirados pela graça, ainda deveriam externar-se em gestos pervadidos de amor à hierarquia e à sacralidade.  

“O senhor poderia nos dar a bênção?”

          Num dia em que lia as revelações da Beata Ana Catarina Emmerick, o Monsenhor João Clá deparou-se com um interessante relato. Narrava ela o modo com que a Santíssima Virgem era tratada na Igreja nascente durante o período transcorrido entre a vinda do Espírito Santo e sua ­Assunção aos Céus. Considerada como verdadeira Mãe de Deus, a veneração para com Ela teria se intensificado cada vez mais, com a seguinte peculiaridade: Maria dava a bênção aos Apóstolos. Então, a partir dessa leitura, ele conversava com outro membro do Grupo mais jovem, comentando:

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Participantes no Primeiro Congresso Latino-americano de "Catolicismo", realizado em Serra Negra (SP), em 1961

— Não sendo sacerdote, Nossa Senhora, no entanto, dava a bênção! É evidente, portanto, que Dr. Plinio pode dar a bênção também! E resolveram:

— Vamos pedir a ele hoje à noite. Temos de conseguir a sua bênção!

Assim o fizeram. Terminada a reunião que costumava fazer para seus discípulos mais novos na casa principal do movimento, Dr. Plinio dirigiu-se à biblioteca, onde atendia os que o procuravam. Os dois entraram atrás dele e, exposto o assunto, concluíram:

— Então nós queríamos pedir, Dr. Plinio: o senhor poderia nos dar a bênção?

 Não foi preciso argumentar muito. Sem a menor resistência, com toda a naturalidade e segurança ele disse: 

— Ah, como não? Benedictio Matris et Mediatrix omnipotentis descendat super vos et maneat semper – A bênção da Mãe e Medianeira onipotente desça sobre vós e permaneça para sempre.

Desejo de uma vida de obediência, pobreza e celibato

Pela primeira vez ele dava a bênção! Os dois se retiraram e subiram à Sala do Reino de Maria, a mais solene da casa, com a sensação de serem carregados por Anjos, tomados por um júbilo interior que jamais haviam experimentado.

Mas o que havia de tão extraordinário naquele simples ato de piedade de dois jovens em relação a quem consideravam seu pai e mestre no plano espiritual? Aquela alegria mística consistia acima de tudo numa forte impressão a respeito de Dr. Plinio, que se apresentava aos olhos deles enquanto varão suscitado por Maria Santíssima para uma altíssima missão, e no qual lhes pareciam concentrar-se todos os valores do passado da Cristandade, bem como as sementes de uma era futura. Sim, a Providência queria favorecê-los com graças insignes, fazendo-os encantarem-se, na realidade, com a presença de Deus numa alma plenamente católica. 

Esse fervor se estenderia pelo Grupo, criando um clima de autêntico enlevo, veneração e ternura pela pessoa de Dr. Plinio. Nos corações se acendia o desejo de entregar-se ao serviço de Nossa Senhora, correspondendo à vocação com uma vida de obediência, pobreza e celibato. Parecia nascer, finalmente, o sol da institucionalização. Mas as nuvens da mediocridade iriam cobrir os seus raios...

Uma crise de diabetes abala-lhe gravemente a saúde

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Dr. Plinio em Genazzano, a 23 de setembro de 1988

As graças recebidas ao longo da década de 1960 por diversos membros do Grupo eram próprias a mudar definitivamente a fisionomia da obra de Dr. Plinio, com vistas a constituir uma instituição religiosa de facto. 

Infelizmente, nem todos os seus filhos espirituais corresponderam à altura, deixando-se levar muitas vezes pela banalidade e pelo esquecimento. A figura grandiosa do seu mestre se eclipsava nos espíritos, corroídos pelo mundanismo. Vendo a decadência de muitos de seus seguidores, Dr. Plinio multiplicou seus esforços apostólicos a fim de reverter esse quadro. Em consequência, sua rotina fez-se extenuante e a doença veio bater-lhe à porta. Uma terrível crise de diabetes o prostrou no leito de dor por alguns meses, privando-o do convívio com o Grupo. 

Ele adquiriu plena consciência de quão grave havia sido o abalo de sua saúde e, inclusive, via a morte de perto, como narrou pouco tempo depois: “Eu me perguntei a mim mesmo se não seria, afinal, o momento em que Nossa Senhora, cansada de mim, haveria de libertar a minha alma. Essa era minha grande apreensão e minha grande angústia. Mas Ela me ampararia até nessa extremidade, e eu morreria com os olhos postos na misericórdia d’Ela”.

Diante dessa perspectiva lembrava-se da frase do Evangelho e tinha a impressão de vê-la realizada em si mesmo: “Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas” (Mc 14, 27). Era a maior dor de toda a sua vida, assim expressa por ele próprio: “Uma provação espiritual que me fazia sofrer muito mais do que a enfermidade física”.

Mas Nossa Senhora não abandonaria um filho tão predileto. Ao contrário, em meio ao drama lhe faria sentir o afago de sua mão materna.  

A graça de Genazzano: sorriso e promessa

No dia 16 de dezembro de 1967, cerca das seis horas da tarde recebeu ele a visita de alguns membros do Grupo de Minas Gerais. Dr. Plinio manifestou muito contentamento ao vê-los, e, logo ao iniciar a conversa, um deles explicou que, aproveitando a passagem de um amigo por Roma, haviam pedido o favor de adquirir certo quadro, para trazer-lhe de presente. Tratava-se de uma estampa de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano, Mater Boni Consilii, cópia do miraculoso afresco que lá se encontra desde o século XV. 

Dr. Plinio estava quase sentado na cama, recostado em vários travesseiros, quando o quadro lhe foi entregue. Este, então, foi apoiado sobre suas pernas e ele o tomou com as duas mãos. 

Absorto, encantado, verdadeiramente emocionado, durante vinte minutos Dr. Plinio contemplou a estampa sem dela desviar o olhar, mantendo um silêncio apenas interrompido por exclamações: 

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Dr. Plinio na escadaria da
Catedral de São Paulo,
após a Missa pelas
vítimas do comunismo,
em  novembro de 1968

— Que imagem magnífica! Impressionante, extraordinária! Mas que maravilha! Como Ela é comunicativa! Olhem, parece que Ela quer falar. Ela mudou de cores. Agora tem outra expressão! Como é bondosa, maternal! Ela sorri, disposta a ajudar! Não há palavras, não se sabe o que dizer!

Monsenhor João Clá, que o acompanhava de perto naqueles dias de convalescença, viu nesse instante a fisionomia dele transformada, refletindo uma consolação extraordinária, quase um êxtase! Sem a menor dúvida, a experiência interior, que Dr. Plinio chamará doravante de graça de Genazzano, foi um genuíno e profundo fenômeno místico. 

“Ao contemplar a imagem eu tive a sensação única, inconfundível, de que o olhar d’Ela se animava, me fitava e me dava segurança”, relataria dez anos depois. E explicaria também: “Não foi uma visão ou revelação, mas era como se Ela falasse comigo”.

Sem propriamente ouvir uma voz, Dr. Plinio sentiu no fundo de sua alma o afago de Maria Santíssima, com claríssimo significado: “Meu filho, não se perturbe. Confie, porque sua obra será concluída e você cumprirá por inteiro sua missão”. E essa garantia era o que ele mais desejava, pois resolvia o terrível problema que o afligia: “O que a imagem disse correspondia à razão de minha angústia. E essa palavra celeste cicatrizava a ferida no que ela tinha de mais profundo”.

Recuperado da enfermidade, Dr. Plinio retomaria as atividades apostólicas, dando novo alento a seus filhos e consolidando no Grupo um tipo de vida que deveria ser a espinha dorsal de sua ordem de cavalaria. 

Regra e regime de vida permeados pelo espírito de Dr. Plinio

Dr. Plinio estivera em Roma no ano de 1962, por ocasião da primeira sessão do Concílio Vaticano II, junto com alguns membros do Grupo que o ajudavam nos seus trabalhos. Estes por vezes faziam incursões piedosas em Assis. 

Há perto dessa cidade um antigo mosteiro, erigido nas encostas do Monte Subasio: o Eremo delle Carceri.7 Tendo-o recebido em doação dos beneditinos, São Francisco de Assis ali se refugiava com seus frades, a fim de permanecer por alguns dias em oração. 

Ora, os acompanhantes de Dr. Plinio costumavam subir até esse local e lá passavam algum período em recolhimento. Quando retornavam a Roma, Dr. Plinio os analisava e, com seu habitual discernimento, notava neles um fenômeno curioso: as fisionomias estavam transformadas. Haviam saído com ares espevitados e voltavam contemplativos.

          Então Dr. Plinio também foi a Assis, visitar o eremo e, de fato, sentiu ali uma graça toda especial. Por isso, surgiu em sua alma o desejo de instituir, para o Grupo, lugares de retiro, a fim de ajudar as pessoas a curar-se de tantos males produzidos pelo pecado original, pelas misérias atuais e pela Revolução.
 
Dr Plinio diante da entrada principal da sede da Rua Pará, em São Paulo, em 1966.jpg
Dr. Plinio diante da entrada
principal da sede da Rua Pará,
em São Paulo, em 1966
Voltando da Europa, resolveu constituir uma instituição de vida comunitária, em uma chácara situada nas proximidades do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Esta recebeu o nome de êremo, termo que entraria doravante na linguagem corrente do Grupo, e foi dedicada à memória de Elias profeta. A partir desse momento ele passou a incentivar ao máximo o que chamou de graça eremítica. 
 
Ao Êremo de Elias se seguiram outros, mas o êremo princeps estaria dedicado ao grande Patriarca do Ocidente, São Bento. O local escolhido por Dr. Plinio foi um antigo mosteiro situado na zona norte de São Paulo. O abençoado prédio, impregnado do aroma beneditino, seria o cadre ideal para uma existência marcada pelo esplendor do cerimonial, pelo tônus sacral dos gestos e das atitudes, e pela mais alta contemplação. Ali a vocação profética e combativa de Dr. Plinio se manifestaria em todo o seu esplendor, abrindo o espírito dos eremitas aos mais elevados e sublimes horizontes. O Êremo de São Bento representou o triunfo da Contra-Revolução tendencial. 
 
Monsenhor João Clá teve a graça de fazer parte da instituição a partir do ano de 1970, haurindo até o mais profundo da alma esse sopro do Espírito Santo, que inspirava um regime de vida e uma regra permeados pelo espírito de Dr. Plinio.

Oferece-se como vítima a fim de salvar sua obra 

Mas a Providência exigiria de Dr. Plinio um novo ato de entrega e heroísmo, pois o Êremo de São Bento passaria, junto com toda a instituição eremítica, por uma terrível noite escura. O Grupo em geral foi perdendo o empuxe, apesar do empenho e zelo do fundador em manter acesa a chama do entusiasmo. Assim ele descreveria a realidade interna de sua obra no ano de 1974: 

“Nas várias sedes da TFP, inclusive nos êremos, a brincadeira e a piada, é verdade que sem jamais ter nada de imoral, mantinham um ambiente de superficialidade, o qual propiciava um relaxamento à maneira do que existe em certos dias de calor. Temos a impressão de que o asfalto da rua não só amolece, mas se evapora; os rios correm, mas as águas não borbulham; e todas as coisas parecem chorar a inutilidade de si mesmas. Esse mal, sendo participado por muitos, era grave”.

Além disso, dizia sentir também que os demônios rondavam à espreita de fazer algo contra ele, referindo-se, inclusive, à possibilidade de um desastre. “Amanhã pode ser que o meu automóvel dê uma trombada”,9 comentou, e levantava a hipótese de permanecer por algum tempo entre a vida e a morte, sangrando na estrada. Tivera ele alguma premonição do que aconteceria em breve? 

O dia 1º de fevereiro de 1975 era um sábado. Segundo o costume, após o jantar ele se reuniu com alguns membros do Grupo no salão de sua residência. Dr. Plinio discorreu a respeito do estado em que se encontrava sua obra e, à medida que falava, analisava a conjuntura e ia dando-se conta, com mais acuidade e precisão, de quanto era trágica. Em consequência, movido pelo exemplo de Santa Teresinha, resolveu renovar seu oferecimento como vítima, decidido a passar pelo sofrimento que aprouvesse a Maria Santíssima: “Pedi a Nossa Senhora para fazer de mim o que entendesse, como alguém que possui dinheiro no banco: saca quanto precisa. Que Nossa Senhora sacasse quanto Ela quisesse deste modesto banco chamado Plinio Corrêa de Oliveira”.10 Só não oferecia formalmente sua vida por fidelidade à graça de Genazzano, que lhe prometera ver cumprida sua missão. 

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Estado em que ficou o carro de Dr. Plinio após o desastre;
toda a força do impacto se concentrou sobre ele

Consuma-se o holocausto: o desastre de 1975              

       Dois dias depois, partia ele para uma fazenda na cidade de Amparo. O motorista de seu carro, que desejava chegar logo ao destino, imprimiu ao automóvel uma velocidade imprudente, sobretudo por ser um dia chuvoso e a estrada cheia de curvas. Dr. Plinio havia-lhe advertido para que fosse mais cuidadoso, mas em vão. O pior aconteceu: o carro de Dr. Plinio derrapou na pista molhada e chocou-se de frente com um ônibus. Toda a força do impacto se concentrou sobre ele.

Tendo a perna esquerda cruzada sobre a direita, o seu joelho esquerdo golpeou o porta-luvas e a bacia não resistiu ao choque: foi afundada e quebrada pelo fêmur, que também sofreu avarias. Ao mesmo tempo, o corpo foi projetado contra o painel, causando a fratura de duas costelas. E, tendo ele levantado a mão esquerda para se defender, todos os ossos desta foram esmigalhados pelo vidro, com o qual colidiu igualmente o cotovelo direito, partindo o úmero. Com a batida de sua cabeça contra o para-brisa dois dentes da frente foram arrancados e o lábio superior foi cortado de alto a baixo, ocasionando grande perda de sangue. A pálpebra esquerda, por sua vez, foi quase toda rasgada e permaneceu pendente, acontecendo o mesmo com a sobrancelha. Além de tudo isso, quem ocupava o banco traseiro foi projetado para a frente e caiu sobre ele. 

Trinta e seis horas depois de seu oferecimento como vítima expiatória, a Providência havia assentido e colhido o holocausto de Dr. Plinio, permitindo que sua integridade física fosse atingida de forma trágica. Anos depois ele o reconhecerá, dizendo: “Muitos fatores levam a crer que Nossa Senhora aceitou o sacrifício já na segunda-feira”. (Revista Arautos do Evangelho, Julho/2016, n. 176, pp. 38 a 43).

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